Pesquisa analisa o que dizem os usuários da rede social Orkut sobre perfis de pessoas falecidas

(São Caetano do Sul – SP) – A morte é um dos maiores mistérios da humanidade – e tabu para muitas sociedades. Mas, se essa dúvida persiste desde incontáveis tempos, pelo menos uma mudança ocorreu no passado recente, e ela se deve ao surgimento das redes sociais. O ser humano é mortal por natureza, mas sua presença no mundo digital é potencialmente permanente.

Este é o complexo cenário que circunda o estudo de Franz Pröglhöf, publicitário por formação. Intitulada “Lápides virtuais: uma análise das narrativas sobre a morte na rede social Orkut”, a pesquisa de Franz busca analisar os imaginários acionados pela questão da morte – mas, desta vez, quando relacionados a essa permanência digital. Para isso, foram observados os comentários tecidos por membros da comunidade “Perfis de Gente Morta”, na rede social Orkut, onde as pessoas postam notas de falecimentos de usuários de redes sociais com os respectivos links para acesso aos seus perfis digitais, que acabam por se transformar em uma espécie de lápides virtuais. Este processo, explica o pesquisador, faz com que “a noção espaço-temporal, tipicamente distinta em ambientes concretos e virtuais, seja distorcida, já que o perfil digital perdeu sua função vinculativa”, tornando os perfis das pessoas falecidas “um espaço reservado ao despertar de lembranças e reflexões (nem sempre agradáveis) e às postagens de homenagens à pessoa que se foi e que ali permanece representada”. Os dados dos perfis das pessoas que se foram são, então, reinterpretados pelos membros da comunidade, parte de um novo contexto e tomados em uma situação completamente distinta. É como se o passado e o presente se pudessem mesclar.

“Sabemos da existência da morte, mas não gostamos de pensar a respeito e a interditamos”, afirma Franz. Contudo, as redes sociais constituem um espaço democrático em que se abre uma fresta para o debate cotidiano do assunto – ainda que de forma superficial, como constatou o pesquisador. “A morte em si praticamente desaparece em meio às inúmeras especulações, investigações, brincadeiras, links externos e mensagens de desvio de assunto. Ela parece ter servido apenas como pretexto para falar sobre a vida – alheia, cotidiana, própria ou imaginada. Não raro, os usuários criaram, coletivamente, realidades que simplesmente não existem a partir de um único fato real: a morte de um desconhecido.” O distanciamento, aliás, é fato relevante para a pesquisa; todos os discursos analisados partiram de pessoas que não possuíam vínculos com os mortos, de modo que o sentimento de luto era ausente. Entre os resultados encontrados pelo publicitário, estão tanto discursos mais radicais, como as apologias ao suicídio e à vingança, quanto dos mais brandos e emotivos, com as mensagens de consolo e compadecimento. Mensagens ligadas à religiosidade e à fé dividiram espaço lado a lado com narrativas de inconformismo, para depois, na sequência, perderem espaço para piadas e banalidades. Embora os deboches e ironias possam ter a função de desviar o assunto principal – a morte –, podendo então apaziguar a impressão negativa que ela costuma desencadear, o pesquisador não se deparou com o medo da morte nos discursos. “Como a rede social é formada em essência por pessoas – e não por frias contas virtuais – também serve de palco à exposição dos receios e expectativas do ser humano a respeito da morte, seja esta alusiva a si mesmo, a uma pessoa próxima ou a um completo desconhecido. A vida pode ter se encerrado, mas os discursos a respeito dela, tal qual um monumento, prevalecem por muito mais tempo além”, conclui.

Para o docente do Programa de Mestrado em Comunicação da USCS e orientador de Franz, Elias Estevão Goulart, a pesquisa abordou uma questão intrigante e nova no contexto das mídias sociais. “A permanência dos perfis de pessoas mortas e, principalmente, a remessa de mensagens sobre esses perfis em uma determinada comunidade elabora uma nova possibilidade de articulações de expressões sobre as pessoas e sobre o fato da morte. As redes sociais potencializam o ser humano, em todas as suas dimensões e abrem espaço para o despontar de si mesmo, por meio de seus pensamentos, interesses, desejos, anseios, alegrias e angústias”, avalia Goulart.

A dissertação de mestrado de Franz E. Passos Pröglhöf Jr. está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2013/pdf/FRANZ_E_PASSOS%20PROGLHOF_JR.pdf

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da USCS junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

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15/08/2014

Imaginários e discursos sobre a morte são no ambiente digital tema de mestrado na USCS