Pesquisador analisa o humor e resgata história de crítica e censura do cartunista Geandré e seu jornal “Ovelha Negra”

(São Caetano do Sul – SP) – De maio de 1976 a agosto de 1977, em plena ditadura militar no Brasil, circulou por bancas, livrarias e cafés de São Paulo um jornal que, assim como diversos outros em sua época, se propunha a criticar e satirizar abertamente o regime político. Diferentemente de seus pares, porém, o jornal “Ovelha Negra”, criado pelo cartunista Geandré, era composto quase que totalmente por cartuns. E essa é uma das principais inovações apontadas por Osvaldo da Silva Costa, autor da dissertação “Uma ovelha negra na cultura midiática: Inovações do humor gráfico na imprensa alternativa brasileira”, desenvolvida no Programa de Mestrado em Comunicação da USCS, Universidade Municipal de São Caetano do Sul.

O próprio Osvaldo é também, aliás, ilustrador e desenhista de humor, além de professor universitário – e foram esses pontos de contato com o universo dos cartuns que despertaram o interesse do autor por Geandré e seu “Ovelha Negra”. Para desenvolver sua pesquisa e resgatar esse trecho da história, o autor estudou as oito edições do impresso, além de entrevistar Geandré e analisar também outros jornais alternativos da época, como “O Pasquim”, “Movimento”, “Bondinho”, “Versus” e “Opinião”. Com tiragem de 20 mil exemplares, o Ovelha Negra vendia 15 mil, entre bancas e assinantes. Em 1976, único jornal de cartum no Brasil, imprimiu em uma de suas edições cem cartunistas. Não tinha colaboradores, e sim voluntários. Geandré afirma que o jornal não apostava numa linha estilística de desenho de humor: se a piada fosse boa, era publicada. Às vezes, porém, os cartuns chegavam à redação sem a assinatura do artista, em razão do medo da perseguição política. A linha editorial do Ovelha Negra era pautada pelos próprios desenhos de humor que chegavam por correspondência à redação, vindos de todo Brasil e até do exterior. “Não havia inferência na edição – se a piada fosse boa, era publicada”, conta Osvaldo. O cartunista e editor Geandré foi várias vezes chamado à Polícia Federal para depor. Explosões e ameaças a donos de bancas afastavam as vendas e leitores dos jornais alternativos. “Os artistas do humor gráfico, por atuarem em seus estúdios, caráter da profissão, não militavam em partidos políticos, não participavam de congressos iguais, como os editores de outras publicações alternativas”, explica o autor. Dessa forma, o jornal ganhava mais independência permitia que os cartunistas se posicionassem mais firmemente, até seu fechamento, diante da situação que o país atravessava: a repressão, a censura, a delação e o confinamento.

Orientador do trabalho de Osvaldo e vice-coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ) da ECA-USP, o professor doutor Roberto Elísio dos Santos destaca que “o humor gráfico sempre esteve presente na imprensa brasileira como um comentário crítico à vida nacional, especialmente em relação à política. Houve momentos em que os artistas brasileiros usaram o cartum e a charge para suplantar a censura vigente, como é o caso dos anos 1970, período mais rigoroso da ditadura militar”.

A dissertação de mestrado de Osvaldo da Silva Costa está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2012/pdf/dissertacao_osvaldo_da_silva_costa_ovelha_negra2.pdf

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da USCS junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/

 

Mais informações à imprensa:

Universidade Municipal de São Caetano do Sul – Assessoria de Comunicação

Luciano Domingos da Cruz – tel. 4239-3259 – e-mail: comunic@uscs.edu.br

04/11/2013

Imprensa alternativa brasileira nos anos 1970 é tema de pesquisa na USCS
Imprensa alternativa brasileira nos anos 1970 é tema de pesquisa na USCS

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Imprensa alternativa brasileira nos anos 1970 é tema de pesquisa na USCS