Pesquisadora iconográfica analisou imagens utilizadas para ilustrar o mesmo assunto em três edições, desde a década de 1990; inovações estão atreladas às práticas cotidianas

(São Caetano do Sul – SP) – Desde a década de 1920 a legislação brasileira tem criado diretrizes para regulamentar a produção de livros didáticos. Além do conteúdo, as fotografias também passam pelo crivo do governo federal e são adaptadas, a cada nova edição, respeitando as leis em vigor. Diante desta realidade do universo editorial, uma pesquisa da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) apontou que as inovações nas imagens podem modificar o entendimento do estudante sobre o mesmo assunto.

O estudo foi desenvolvido pela pesquisadora iconográfica e revisora Cristiane Mayumi Morinaga, que investigou as mudanças nas fotografias de livros usados em sala de aula nos últimos 25 anos. Na dissertação de Mestrado “Mudanças no uso da fotografia em livros de história e geografia para o ensino fundamental”, a especialista comparou obras didáticas utilizadas nas duas disciplinas do Ensino Fundamental II. Os livros são editados e atualizados pelas editoras Moderna e Saraiva.

Duas situações específicas foram analisadas pela pesquisadora para comprovar as alterações no entendimento: a primeira ilustra a descendência açoriana na produção de renda; a segunda, jovens favoráveis ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor. As fotografias veiculadas na década de 1990 mostram claramente os rostos dos personagens, “sem que a editora corresse o risco de processos por causa do uso de imagem indevida dos retratados”, ressalta Cristiane.

Na segunda série das fotografias que ilustram os mesmos assuntos, na década de 2000, a pesquisadora relata a preocupação em não identificar os indivíduos. A foto da senhora que produz renda é substituída por uma silhueta da mulher e de seu apetrecho de rendas. Já a imagem dos manifestantes é substituída por uma foto de jornal manipulada, para não mostrar os rostos com nitidez. “Nos dois casos, o uso de recursos de iluminação fotográfica e de computação gráfica, para atender à legislação vigente, acabou por prejudicar as ilustrações.”

Mais recentemente, nos anos de 2012 e 2013, as imagens dos livros didáticos evitam definitivamente os rostos das pessoas. Para contextualizar a produção de renda, o registro é um close das mãos e um apetrecho. Segundo a revisora, a imagem do artesanato é clara, mas nenhuma outra característica dos descendentes de açorianos pode ser percebida. “Transmite informações com mais eficiência que a segunda foto, mas perde algumas em relação à primeira”, avalia.

No caso da foto de história política, trata-se de uma imagem aérea, distante, que transmite outras ideias sobre o impeachment de Collor. “Primeiramente, não são vistos os caras-pintadas, nem é detectada a presença de jovens. No entanto, a foto consegue mostrar a dimensão da manifestação”. Na avaliação da especialista, as três fotos diferentes para ilustrar mesma situação “podem ocasionar leituras e entendimentos diversos pelos alunos”.

COTIDIANO – Cristiane considera que as mudanças no uso das imagens nos livros didáticos têm relação com as alterações no percurso das ciências, assim como as práticas cotidianas no mundo. “O livro didático precisa acompanhar essas mudanças na sociedade. Os bancos de imagens começaram a produzir e disponibilizar para licenciamento conteúdos digitais (vídeos, animações, gráficos animados etc.); fotógrafos começaram a se adaptar a essas necessidades; iconógrafos passaram a ter que pesquisar novos tipos de materiais”, observa a revisora.

A dissertação de mestrado de Cristiane Mayumi Morinaga, Mudanças no uso da fotografia em livros de história e geografia para o ensino fundamental, está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2015/pdf/DISSERTACAO_CRISTIANE_M_MORINAGA.pdf

Sobre o Mestrado em Comunicação

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da universidade junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

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25/09/2015

Mudanças nas fotografias de livros didáticos podem alterar interpretação do aluno, aponta estudo da USCS