Pesquisadora da USCS narra como cinco trabalhadores da região inovaram para driblar censura e levar informação aos metalúrgicos ‘na surdina’, entre 1964 e 1985

(São Caetano do Sul – SP) – O golpe civil-militar no Brasil completou 50 anos em 2014, ano em que o país parou para investigar práticas de tortura e assassinatos ocorridos durante a ditadura (1964-1985). No bojo das intermináveis discussões sobre os crimes cometidos no regime militar, um fato chamou a atenção da jornalista Maria Angélica Ferrasoli, que decidiu estudar como os operários ativistas driblavam a censura e inovavam naquele período para levar informações aos colegas dentro das fábricas. E constatou: a comunicação era totalmente clandestina.

Mestre em Comunicação pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Maria Angélica fez um recorte regional, pesquisou o Grande ABC Paulista, cinturão industrial do Brasil, historicamente marcado pelas greves sindicais de 1970 e 1980, responsáveis, em parte, pela democratização do país. Para narrar uma história ainda pouco explorada, a profissional entrevistou cinco trabalhadores que atuaram em multinacionais da região, entre 1960 e 1980, e atendem pelo título de operários engajados – à época – na resistência à ditadura.

Foram cerca de dez horas de entrevistas e a expressão “na surdina”, usada pelos metalúrgicos, define como era preciso criatividade para produzir e distribuir informativos dentro das empresas, além de coragem para garantir uma comunicação eficaz que, em muitos casos, era marcada pela oralidade e pelo gestual. “(Naquele período), os sindicatos estavam sob intervenção. As lideranças, presas, exiladas ou mortas. Não havia, portanto, uma estrutura que possibilitasse a comunicação entre os trabalhadores”, ressalta Maria Angélica.

Com o estudo, foi possível entender a lógica de distribuição dos boletins e jornais, segundo a pesquisadora, “passados de mão em mão e destinados a desaparecer; ‘escondidos’ intencionalmente sob chapas de aço ou outros materiais e selinhos colocados em pontos estratégicos, como as chapeiras – próximas aos locais onde se registra o ponto”, conta. Os entrevistados narraram com detalhes como o material era levado sob a roupa e, muitas vezes, distribuído e lido nos banheiros, onde também se fazia o pagamento da mensalidade sindical.

Outras formas de comunicação, revela Maria Angélica, eram as pichações, a conversa informal no horário do almoço ou no bar próximo da fábrica. “O reconhecimento do outro pela observação de seu discurso (eram criticadas as más condições de trabalho, alguma leitura na linha marxista era revelada etc.) também era fundamental para levar adiante essa comunicação, como forma de buscar aliados ou detectar a presença de agentes da repressão infiltrados”. Para as pichações, usava-se como senha a luz de um fósforo ou isqueiro: uma vez aceso pelo colega, o trabalho podia ser iniciado.

A pesquisa também aponta para o surgimento do chamado novo sindicalismo no país, e apresenta algumas considerações dos entrevistados sobre essa nova forma de organização sindical, “em que a temática econômica ganhou destaque em detrimento às considerações teóricas e políticas”, observa a pesquisadora. Mas, na opinião da especialista, tão fundamental quanto aquele momento é “o repasse do conhecimento, que tanto buscaram, às gerações futuras”.

Segundo Priscila Ferreira Perazzo, orientadora do trabalho, “a partir do relato de memórias desses trabalhadores, militantes contra a ditadura civil-militar, foi possível saber de diversas ações de comunicação que driblaram a censura e a repressão do período”, observa.

A dissertação de mestrado de Maria Angélica Ferrasoli, Comunicação, Inovação e Resistência: um relato de trabalhadores militantes nas empresas do Grande ABC durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2015/pdf/DISSERTACAO_MARIA_ANGELICA_FERRASOLI.pdf

Sobre o Mestrado em Comunicação

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da universidade junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

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26/08/2015

Operários resgatam memórias de militância dentro das fábricas do Grande ABC durante a ditadura