Foco é na comunicação envolvida no ritual da comunidade dos penitentes da cidade de Barbalha, no Ceará

(São Caetano do Sul – SP) – O autossacrifício e a penitência do corpo são práticas religiosas existentes, pelo menos, desde a Idade Média. A dor e o derramamento de sangue são, para os adeptos da prática, uma maneira de compartilhar o próprio sofrimento de Jesus – “em uma dimensão religiosa, o homem considerado sempre como pecador tinha na flagelação do corpo uma forma de comunicação e de aproximação com Deus que levaria à remissão de seus pecados e à libertação de sua alma”, explica Marcos Martinez Munhoz, pesquisador formado em Publicidade e Propaganda e, atualmente, doutorando em Semiótica da Comunicação na PUC/SP.

É por meio da pesquisa “A comunicação do ritual de autossacrifício do corpo: Os penitentes de Barbalha – CE”, que Marcos busca retratar e analisar essas práticas em tempos contemporâneos, traçando um paralelo entre as tradições da Irmandade da Cruz, radicada na cearense Barbalha, e as práticas da Irmandade Flagelante, atuante no período da Baixa Idade Média. O grupo em questão foi formado a partir de uma seca ocorrida em 1860 na região do Crato, no Ceará, de modo que as mortes em massa ocorridas foram compreendidas como uma “doença divina”. Os costumes religiosos medievais, divulgados a partir da memória eclesiástica, foram então adotados por parte da população local. “A partir de um costume decorrente de um padre político, que a partir de uma demonstração pública apropriou-se do divino representando aquilo que seria uma reprodução da passagem da via crucis e das passagens bíblicas a um povo analfabeto, criou-se, então, o homem do campo como penitente, imitando o que viu com suas próprias verdades e entendimento”, conta Marcos. O ritual de autopenitencia servia, ao mesmo tempo, como limpeza da alma e pedido de proteção contra a peste. “O modo como os penitentes se comunicam com o mundo por meio do sacrifício do corpo, o silêncio que cada penitente criava com a sua fé, reservando-se dentro de sua casa e mantendo-se em segredo até mesmo da sua família e do seu oficio, demonstram um enfrentamento social, que suas práticas não teriam de ser comuns, como a sua fé também”.

A publicização do ritual e seus penitentes, contudo, realizada em especial pela prefeitura da cidade e por um documentário de TV, acabou por modificar a rotina do grupo. Tornado público, não há mais garantia de anonimato, e os praticantes expressam dificuldades em perpetuar seus rituais – que envolve, também, o desinteresse dos jovens.

Para a orientadora da pesquisa de Marcos, Regina Rossetti, professora com pós-doutorado em Filosofia pela USP, “esta pesquisa trata do modo como os penitentes se comunicam com o mundo por meio do sacrifício do corpo e assim expressão sua fé. Trata também, criticamente, do impacto da mídia na espetacularização de um ritual do catolicismo popular que até esse momento era mantido em segredo como forma de garantir sua tradição”.

A dissertação de mestrado de Marcos Martinez Munhoz está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2013/pdf/DissertacaoMarcos.pdf

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24/09/2014

Ritual de autossacrifício é tema de pesquisa na USCS