Momento histórico e fazer jornalístico de uma geração são compreendidos a partir das memórias narradas pelos jornalistas

(São Caetano do Sul – SP) – O final dos anos 1980 esteve repleto de mudanças políticas e econômicas no mundo e no Brasil, e a prática jornalística no país, em particular, passou a desfrutar novamente de liberdades então controladas, num cenário em que ocorreu a primeira eleição presidencial democrática em 29 anos, seguido de um processo inédito de impeachment. A imprensa esteve presente em todos esses momentos. A corrida eleitoral, os atos do governo e os desdobramentos que resultaram na queda do então Presidente Fernando Collor de Melo foram acompanhados de perto por jornalistas de diversos veículos, repercutidos e analisados. O senso comum chegou a cristalizar a noção de que “a imprensa elegeu e derrubou o governo”. Mais de 20 anos após esses fatos, porém, como esses próprios jornalistas se recordam da história? Essa é exatamente a pergunta que motivou o jornalista Luciano Domingos da Cruz a realizar uma pesquisa, que lhe rendeu o título de mestre em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

O pesquisador entrevistou Augusto Nunes, Bob Fernandes, Bóris Casoy, Clóvis Rossi, Francisco Wianey Pinheiro, Milton Coelho da Costa e Roberto Pompeu de Toledo, sete jornalistas que atuaram por grandes veículos da imprensa brasileira, notadamente do eixo Rio-São Paulo, a fim de recuperar a história do país e do jornalismo a partir das memórias dos profissionais sobre o período. Um dos principais pontos do trabalho de Luciano é destacar a subjetividade intrínseca tanto ao trabalho do jornalista como do cientista pesquisador. Em ambas as profissões a busca pela isenção está presente, mas, por sua vez, é impossível que as posições pessoais não façam parte do cotidiano destas áreas. Essa ambiguidade é discutida nas reflexões de Cruz, uma vez que seu estudo considerou a atual discussão da subjetividade na ciência.

Para Luciano, Fernando Collor estava bastante familiarizado com os mecanismos que regem a grande imprensa brasileira e soube explorá-los. “Ao criar a figura do ‘caçador de marajás’, assim como um autor de novelas que, ao sabor das preferências da audiência, dita os rumos de suas personagens, Collor passou a direcionar suas ações ‘sob encomenda’ para o consumo da mídia de abrangência nacional”, afirma. Então a imprensa, área que, necessariamente, atua sempre rodeada por diferentes interesses – os de seus donos, anunciantes, trabalhadores – viveu um período de ebulição. “O discurso é o da isenção, porém seu exercício diário é o da edição”, destaca Luciano, que observou uma sensação de desconforto nas narrativas dos jornalistas sobre o período. “O problema está na crença, e no discurso dos grandes órgãos de imprensa, que clamam para si a condição de paladinos da imparcialidade.” Se, num primeiro momento, a imprensa apoiou Collor como “o caçador de marajás”, dois anos depois, diante dos escândalos que o levaram ao impeachment, voltou suas costas contra ele – em busca de credibilidade e de estar à frente da concorrência, destaca Luciano. O pesquisador observa, ainda, que os jornalistas entrevistados demonstram ser mais descritivos em relação às memórias de suas próprias vidas, e mais analíticos no que tange o momento histórico em questão. “Demonstram como a crença na isenção jornalística é um valor cultural desta comunidade”, conclui.

Doutora em História Social (FFLCH-USP) e orientadora do trabalho de Luciano na USCS, Priscila Ferreira Perazzo destaca que “essa pesquisa é de grande importância e interesse para os que querem compreender um momento histórico ainda pouco analisado pela historiografia. Contudo, como uma pesquisa que se volta para a área da Comunicação, um dos importantes resultados desse trabalho está na discussão do fazer jornalístico. Luciano nos apresenta uma geração de jornalistas que não cursou a faculdade ou teve a formação específica como vemos nos dias de hoje. Por suas histórias de vida, advindas do método de investigação adotado, compreendemos que esses jornalistas aprenderam o ofício pela experiência, mas foi justamente essa geração que sistematizou a prática e por trabalharem na grande imprensa foram os ‘mentores’ dos manuais e normas de trabalho e conduta do profissional do jornalismo. Essas práticas, para as gerações seguintes, passaram para os livros de formação e para as salas de aula das faculdades. Por isso que um dos resultados mais interessantes desse estudo diz respeito à ambiguidade da isenção do jornalista e a edição das matérias”.

A dissertação de mestrado de Luciano Domingos da Cruz está disponível para consulta – na íntegra – no link:

http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/dissertacoes/2013/pdf/LUCIANO_DOMINGOS_DA_CRUZ.pdf

O programa de Pós-Graduação em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da USCS junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

Mais informações à imprensa:

Universidade Municipal de São Caetano do Sul – Assessoria de Comunicação

Luciano Domingos da Cruz – tel. 4239-3259 – e-mail: comunic@uscs.edu.br

05/08/2014

Vivências de jornalistas durante a cobertura do “período Collor” são tema de pesquisa na USCS