Jornalista identificou inovações narrativas no estilo ‘Telecatch’, popular entre 1960 e 1980; estudo mostra facetas dos personagens, uso da Internet e participação feminina

(São Caetano do Sul – SP) – A luta livre, que ficou popularmente conhecida no Brasil como Telecatch, conquistou a preferência dos telespectadores do país entre 1960 e 1980. Nos anos de ouro, o esporte de entretenimento, o chamado Pro-Wrestling, chegou a disputar o primeiro lugar no ranking dos mais populares, ao lado do boxe e do futebol. Apesar disso, poucos especialistas falam com propriedade sobre o tema, um cenário que o pesquisador Carlos Amaral pretende mudar. O jornalista concluiu recentemente uma pesquisa científica sobre as inovações na construção dos personagens desta modalidade de luta.

Mestre em Comunicação pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Carlos estudou as facetas dos lutadores que simbolizam o Telecatch e comparou o passado com os artistas/esportistas em atividade no Brasil. Na dissertação “Luta livre e as inovações narrativas no espetáculo Pro-Wrestling”, o pesquisador debate as formas de narrativas deste espetáculo, abordando desde figurino até as performances e gestos treinados pelos competidores.

Após análise documental e entrevistas com presidentes das academias e federações de luta livre no Brasil, o autor identificou que uma das principais características deste combate é a disputa entre vilões e heróis, ou seja, no ringue os personagens representam os papeis do bem e do mal. “No período em que o Telecatch brasileiro brilhava na TV, os lutadores que simbolizam o mal eram chamados de sujos e os mocinhos de limpos. Outros dois termos usados por algumas das equipes atuais: base ou heel (vilão) e volante ou face (mocinho)”, conta.

Segundo o estudo, apesar de toda a rivalidade, não havia cinturão a ser defendido pelo vendedor. Calos avalia que o fundamento do Telecatch no auge da popularidade era “unicamente ver o herói vencer o vilão”. Ao revelar algumas características do lutador herói, o jornalista destaca que os “limpos buscam mostrar valores de valentia, justiça, persistência, caráter e alegria; um símbolo de excelência, bondade, heroísmo e perfeição”, reforça. Ao contrário dos sujos, que apostam na vitória a qualquer custo. É um vale tudo, com direito a dedo e limão no olho do adversário.

O COMEÇO DO FIM? – A intervenção militar, que impedia a transmissão das lutas livres em horários nobres na TV, fez a modalidade perder patrocinadores. Relatos dos profissionais envolvidos na arte reforçam a queda na audiência. “É impossível saber se sem a ditadura o Telecatch teria alçado voos maiores, mas o que ficou para os dias atuais é a exibição de futebol em todos os meses do ano. Para a luta livre restou apresentações esporádicas na TV”, enfatiza o autor da pesquisa.

Significa que ainda há brasileiros apaixonados por luta livre. Ao menos é o que aponta o jornalista, que identificou novos personagens deste mundo, são jovens que acompanham os conteúdos americanos, disponíveis nos canais de televisão abertos, e procuram academias que ensinam os golpes. E esses novos lutadores seguem o mesmo padrão de figurino dos personagens das décadas de 60, 70 e 80: usam máscaras e roupas chamativas. “As opções mais trabalhadas são de sunga, calça, máscara ou camiseta e calça.”

Nesta versão contemporânea, os “faces preferem roupas mais coloridas com azul, branco, amarelo, verde. Os heels buscam cores escuras como o preto, roxo e outros tons mais sombrios”, conta Carlos. Mas a lógica da luta livre continua a mesma: uma performance que exemplifica a luta do bem contra o mal. Atualmente, o consumo é estimulado pela venda itens com o logo das entidades que representam a categoria. Outro dado relevante é a participação feminina na luta livre, característica inovadora, pois permite combates entre homens e mulheres.

Na era tecnológica, as mídias sociais também aparecem como um recurso inovador para se chegar aos fãs. “As federações têm redes sociais, canais no YouTube para postarem os vídeos de shows, promoções e qualquer outro conteúdo relacionado ao trabalho que vêm fazendo, algumas possuem site”, destaca o pesquisador. Para ele, sem a Internet, o Telecatch teria acabado. “É notório que sem a Internet e as possibilidades de compartilhamento de conteúdo, a luta livre no Brasil não existiria mais, pois viver só de shows ao vivo, pouca exposição na mídia seria o golpe fatal.”

Orientadora do trabalho, a professora doutora Regina Rossetti avalia que “o estudo apresenta um panorama completo da realidade atual da Luta Livre no Brasil indicando quais foram suas inovações em relação ao período de ouro do Telecatch para que ela conseguisse sobreviver nos novos contextos sociais e culturais do século XXI”.

Sobre o Mestrado em Comunicação

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da universidade junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

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Luta livre brasileira vira tema de pesquisa científica da USCS