Investigação combinou Estudos Culturais com metodologia de Narrativas de Orais para compreender a linguagem de canções remixadas e músicas elaboradas com samples

(São Caetano do Sul – SP) – A consolidação do DJ (disc-jóquei) na cultura pop ocorreu principalmente após a popularização do LP (long play) como principal suporte de armazenamento de áudio. A partir da década de 1960, esse profissional atuou em programas radiofônicos e em festas (discotecas), em uma espécie de “curadoria musical”. Com a evolução de tecnologias e o surgimento de novos equipamentos – toca-discos, mixers, LPs e, posteriormente, softwares –, alguns disc-jóqueis começaram a reutilizar canções gravadas em novos contextos. Os desdobramentos dessas intervenções artísticas firmaram duas práticas importantes na história da música pop eletrônica: a remixagem e o sampleamento.

Essas possibilidades de criação foram analisadas por Nilton Carvalho na dissertação “DJs, remixes e samples: inovação, memória e identidades na linguagem híbrida da música nas mídias”, defendida pelo pesquisador neste semestre, na USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) sob orientação do Prof. Dr. Herom Vargas. A pesquisa parte da ideia de citação, presente em diversas linguagens (cinema, pop art etc.), para compreender os significados postos em jogo pelos DJs que reutilizam canções existentes – a exemplo de um rap que sampleia uma base instrumental do cantor funk James Brown. Entretanto, a investigação não se preocupa apenas em identificar os hibridismos gerados pela intertextualidade dessas obras, mas usa os depoimentos de história de vida dos DJs para compreender a geração de sentido e aspectos comunicacionais que esse tipo de música possui.

O pesquisador selecionou quatro DJs: KL Jay (Racionais MC’s), Luana Hansen (DJ e rapper), Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê e Fatnotronic) e Alfredo Bello (DJ Tudo), cujos trabalhos foram analisados por meio de conexões entre os hibridismos das canções e os repertórios de seus respectivos produtores. A hipótese formulada no estudo apontou que determinados hibridismos, gerados por sampleamentos e remixagens, são desdobramentos da memória musical e das identidades assimiladas por esses artistas no decorrer de suas trajetórias musicais.

Nos capítulos iniciais, Nilton Carvalho discute as primeiras experiências com música eletrônica, que começam nas vanguardas do início do século XX e posteriormente migram para a música pop. O pesquisador também aborda a massificação da música estimulada pelo surgimento das rádios e suportes de gravação de áudio (disco de goma-laca e LPs, por exemplo), que marcam também a ascensão da Indústria Cultural. Em seguida, o autor discute questões relacionadas à cultura remix, fenômeno contemporâneo de reutilização de conteúdos dos mais variados tipos, como as embalagens de sopa utilizadas na obra do artista Andy Warhol ou as menções a outros filmes que marcam os trabalhos do diretor Quentin Tarantino. A introdução às técnicas de remixagem e ao uso do sampler abre caminho, ao final do segundo capítulo, para as relações das citações observadas nessas práticas com as articulações da memória e identidades – uma vez que para o autor esses textos citados fazem parte do universo de pertencimento de quem os aciona.

O terceiro capítulo da dissertação propõe uma arqueologia musical na vida dos DJs selecionados no corpus da pesquisa. Por meio de relatos de histórias de vida, Nilton Carvalho identificou a maneira com a qual a música pulsa na vida desses artistas, apontando como e em quais períodos esses materiais, por eles citados nas canções, aparecem. Enquanto os Estudos Culturais dão suporte teórico à análise dos hibridismos e seus significados artísticos e políticos, as metodologias de Narrativas Orais e Memória valorizam a fala dos produtores das músicas, ao deixar que eles apontem seus caminhos e suas escolhas.

Os resultados obtidos mostram a existência de uma prática de produção musical alternativa e minoritária, à margem da indústria fonográfica, que reforça a diversidade no ambiente midiático. Pois tanto o sampler quanto as técnicas de remixagem são geradores de músicas híbridas, que não podem ser enquadradas em gêneros definidos pelo mercado. No entanto, para o pesquisador, esse estudo revelou novos desafios, que devem ser trabalhados em um projeto de doutorado. “Essas práticas são paradoxais, pois, ao mesmo tempo em que reforçam a diversidade, repetem textos canônicos da cultura midiática. Há também casos interessantes em que o sampler equipara textos locais e globais, e até desterritorializa artistas periféricos reivindicando novos espaços. Mas o desafio agora é compreender essas relações entre underground e mainstream, pois eles estão próximos. Seria importante evitar polarizações, em busca de um terceiro significado, que talvez já ocorra: a canção que nasce no contexto da diversidade, gerada pelo mundo pós-industrial globalizado. Nos próximos meses vou trabalhar melhor essa ideia”, explica.

Sobre o Mestrado em Comunicação

O programa de Mestrado em Comunicação da USCS objetiva contribuir com a geração e difusão do conhecimento científico no campo da Comunicação e, com isso, dar consecução à missão da universidade junto à comunidade interna e externa. Pretende ainda contribuir na formação de pesquisadores e docentes com visão crítica e científica do campo da Comunicação face a uma sociedade em constante transformação. Informações sobre o programa: http://www.uscs.edu.br/posstricto/comunicacao/.

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Pesquisa usa metodologia de memória para analisar hibridismos na música eletrônica